A internet é uma maravilha tanto que escrevo esta coluna desde dez mil quilômetros de distância e toda sexta feira, vocês lêem meus comentários que, sejam bons ou ruins, é como se eu estivesse aí mesmo na outra esquina. Ao mesmo tempo em que é uma grande ferramenta entre outras coisas para obter informação, espalha pelo mundo besteira de montão. Tornou-se consultório médico e psicológico, pra muita gente serve de motel, para outros, o esconderijo perfeito para liberar suas fantasias sexuais obscuras. Mas há quem a utilize para trabalhar e até fazer pesquisas sérias, pois existem excelentes bancos de dados recheados de trabalhos acadêmicos. Dentro das besteiras que recebo por email uma merece comentário: “Obama é o candidato do apocalipse: será o anticristo?”. Que horror aqueles que não podem conviver com o sucesso dos outros. Que horror os preconceituosos. Que horror aqueles que não conseguem conter sua inveja. Que horror os que se julgam superiores por conta da quantidade de melanina que carregam no corpo. Se o anticristo vai controlar o mundo através de uma nação, os Estados Unidos já estiveram em situação melhor do que estão agora para tal. Onde já se viu aqueles que se consideram cristãos e segundo eles mesmos, os melhores candidatos ao reino dos céus, aventarem a possibilidade de Obama ser o anticristo reencarnado. Será que é porque ele é negro? Que “religiosidade” é essa? Mas, por falar em ignorância, outro dia tinha um catalão traz de mim e quando ele perguntou se eu tinha algum hobby, rapidamente disparei: “Sim tenho, gosto de dançar nua sob lua cheia. Isso não é coisa de bruxa? perguntou ele. Minha resposta foi afirmativa acompanhada do conhecido chavão: Jo no creo em brujas pero que las hay, las hay!” Alcancei meu objetivo. Hoje, o tal catalão passa por mim e apenas me saúda com um cordial bom dia bem de longe, e eu, sigo meus dias em paz, acordando pelas manhas olhando para a muralha medieval que vejo de minha janela. Vivo no bairro velho da cidade, conhecido por ter sido importante reduto judeu na idade média. Estou num edifício do início do séc. XIX, ao lado de uma obra que se mantém em pé desde a idade média. O bacana de viver na Europa é isso. É viver dentro da história, respirar a história e poder conhecê-la melhor. A cidade onde moro, Girona, foi fundada pelos romanos no séx III a.C, e recebeu o status de cidade no séc. I a.C quando passou a ser conhecida como Gerunda. Durante muito tempo foi considerada a porta de entrada da Catalunha pelo status comercial que mantinha. Acredito que hoje seja uma cidade turística mais do que industrial. É agradável e cheia de locais históricos para conhecer. Em cada esquina uma pedra diferente, em cada canto um detalhe que chama a atenção dos mais antenados. Apesar de tudo isso, a impressão que tenho é que aqui não existe alegria, não existe felicidade. Os catalães estão sempre de cara feia, amarrada, exalando uma expressão de descontento. Parecem estar sempre mal humorados apesar de não estarem. Confesso que às vezes, tenho medo de que esse comportamento seja contagioso então me levanto, abro a janela, olho para a muralha linda que me cerca e com um enorme sorriso digo bem alto pra todo mundo ouvir: bom dia sol, obrigada universo pela oportunidade de poder enxergar esta maravilha que continua em pé depois de 700 anos de construção. A vida é linda demais, basta querer vive-la! Um grande abraço
Lilian Fraga
Arquiteta Urbanista
Designer de interiores
Colunista do Jornal da Economia/SP – Revista e Gidona - Espanha
www.lilianfraga.com.br
www.blog.lilianfraga.com.br
data: 14/11/2008